Lilian Mota advocacia

Comissão da Advocacia Multiportas debate como padrões e estereótipos impactam a atuação da advocacia

Como a cultura profissional, os estereótipos e as expectativas sobre comportamento influenciam a forma como advogados e advogadas ocupam seus espaços de atuação? A questão esteve no centro da reunião da Comissão Nacional da Advocacia Multiportas do Conselho Federal da OAB, que discutiu os aspectos humanos e relacionais presentes no exercício profissional e os desafios enfrentados pela advocacia em diferentes ambientes.

O debate abordou, entre outros temas, as expectativas relacionadas à apresentação e à postura dos profissionais, os julgamentos que ainda recaem sobre mulheres no ambiente jurídico e a associação de determinadas formas de comunicação à ideia de prolixidade. Também foram discutidos os desafios enfrentados por mulheres em posições de liderança e a necessidade, muitas vezes, de adaptação a modelos de comportamento historicamente estabelecidos.

Para a presidente da comissão, Eunice Schlieck, a discussão evidencia que a Advocacia Multiportas não se limita às técnicas de resolução de conflitos, mas envolve a capacidade de compreender as pessoas e as relações que estão por trás das demandas jurídicas. “A reunião demonstrou que a Advocacia Multiportas vai além das técnicas de resolução de conflitos. Ela nos convida a compreender as relações humanas que atravessam o exercício profissional, acolhendo diferentes perspectivas e fortalecendo uma advocacia mais consciente, colaborativa e preparada para lidar com a complexidade das demandas contemporâneas”, afirmou.

Uma das perspectivas apresentadas foi a de que a legitimidade conferida pela inscrição na OAB deve ser suficiente para assegurar o exercício profissional com autenticidade, sem que advogados e advogadas precisem se adequar a padrões externos de comportamento ou apresentação para ocupar seus espaços.

A representatividade e a liderança também foram discutidas a partir dos desafios historicamente enfrentados por mulheres que ocupam posições de comando. Os participantes apresentaram diferentes visões sobre a necessidade de adaptação a determinados modelos de liderança e sobre os impactos dessas expectativas na trajetória profissional.

As divergências foram incorporadas ao debate como parte do processo de construção coletiva e de amadurecimento dos trabalhos da comissão.

As relações humanas no Direito

A reunião também discutiu como as vulnerabilidades e os conflitos humanos atravessam diferentes áreas da advocacia, não apenas o Direito de Família. Os participantes destacaram, por exemplo, que relações familiares podem estar presentes no ambiente empresarial, considerando que muitas empresas possuem estruturas familiares e que questões pessoais podem repercutir diretamente nas relações societárias.

Nesse cenário, a atuação multiportas exige do profissional mais do que domínio técnico. A capacidade de compreender as dimensões humanas dos conflitos, reconhecer diferentes vulnerabilidades e adaptar a comunicação às circunstâncias de cada caso foi apontada como elemento importante para a construção de soluções mais adequadas.

A discussão reforçou a proposta de uma advocacia que, além de conhecer os instrumentos jurídicos disponíveis, esteja preparada para compreender a complexidade das relações que dão origem aos conflitos e buscar, a partir dessa leitura, os caminhos mais adequados para sua solução.